O cliente que usa seu serviço gratuito cancela 40% menos
Serviços inclusos que ninguém usa podem ser a chave para reduzir cancelamentos. Os dados mostram como.
Muitos negócios baseados em mensalidade oferecem serviços adicionais inclusos no plano — assistência 24h, suporte prioritário, benefícios extras. A ideia é agregar valor. Mas o que acontece quando o cliente nem sabe que tem direito a esses serviços? Ele cancela mais.
Analisamos os dados de uma associação de proteção veicular com 3.000 membros e descobrimos algo que deveria mudar a forma como qualquer empresa pensa sobre seus serviços inclusos.
O dado que surpreende
- Clientes que usaram a assistência 24h: 11,9% de churn
- Clientes que nunca usaram: 19,6% de churn
- Diferença: 7,7 pontos percentuais
Quem usa o serviço de assistência 24h cancela 40% menos. E existem 1.352 clientes ativos na base que nunca usaram esse serviço — um potencial enorme de retenção inexplorado.
A diferença de 7,7 pontos percentuais pode parecer modesta, mas em uma base de 3.000 membros representa dezenas de clientes retidos por ano. Com um ticket médio de R$ 154/mês e permanência média de 18 meses, cada cliente retido vale R$ 2.772 em receita futura.
Por que usar o serviço reduz o cancelamento
Frederick Reichheld, o mesmo pesquisador que demonstrou o impacto financeiro da retenção, publicou em 2003 um artigo na Harvard Business Review sobre a relação entre engajamento do cliente e lealdade. A conclusão: clientes que interagem ativamente com o serviço desenvolvem uma percepção de valor que vai além do preço.
No caso da assistência 24h, existem três mecanismos que explicam a menor taxa de cancelamento:
- Percepção de valor concreto. Quando o cliente usa a assistência — seja para um pneu furado, uma pane elétrica ou um chaveiro — ele experimenta o valor do serviço na prática. Não é mais uma "promessa no contrato"; é algo que ele viveu.
- Efeito de reciprocidade. Após receber ajuda em um momento de dificuldade, o cliente sente uma conexão emocional com o serviço. Estudos de psicologia comportamental mostram que experiências de ajuda criam um vínculo que reduz a probabilidade de abandono.
- Custo de troca percebido. Quem já usou e sabe que funciona pensa duas vezes antes de trocar por um concorrente desconhecido. "E se o outro não for tão bom?" É uma barreira emocional poderosa.
O problema: 1.352 clientes que não sabem o que têm
O dado mais revelador não é a diferença nas taxas de churn. É o número de clientes que nunca usaram o serviço de assistência 24h: 1.352 pessoas. Quase metade da base.
Esses clientes estão pagando por algo que não usam e, portanto, não percebem valor. Para eles, a mensalidade é "só mais uma conta". Quando chega um reajuste, ou quando o orçamento aperta, esse é o primeiro corte.
A pergunta que todo gestor deveria fazer: "Meus clientes sabem o que está incluso no plano deles?" Na maioria das vezes, a resposta é não.
Engajamento como estratégia de retenção
A ideia de que engajamento correlaciona com retenção não é nova. Empresas de software (SaaS) já usam isso há anos: quanto mais funcionalidades o cliente usa, menor a chance de cancelamento. O conceito é o mesmo para qualquer negócio de recorrência.
Kumar e Reinartz (2016), em seu livro Customer Relationship Management, demonstram que o engajamento do cliente é um dos preditores mais consistentes de retenção em modelos de assinatura. Não basta ter o cliente na base — é preciso que ele use o serviço.
O que fazer com esses 1.352 clientes
- Comunique os benefícios ativamente. Envie uma mensagem simples: "Você sabia que seu plano inclui assistência 24h para pneu furado, pane elétrica e chaveiro? Salve esse número: (XX) XXXX-XXXX." Parece básico, mas a maioria das empresas nunca faz isso de forma proativa.
- Crie momentos de uso. Ofereça uma "revisão preventiva gratuita" ou um check-up de serviços inclusos. O objetivo é fazer o cliente experimentar o valor pelo menos uma vez.
- Identifique quem está em risco. Cruze a lista de "nunca usou assistência 24h" com outros fatores de risco (plano barato, região com alto churn, atraso no pagamento). Os que acumulam fatores são os mais urgentes.
- Meça o impacto. Após a campanha de comunicação, acompanhe se a taxa de churn dos 1.352 se aproxima dos 11,9% dos que já usam. Esse é o indicador de sucesso.
A retenção começa antes do cancelamento
A maioria das empresas só pensa em retenção quando o cliente pede para cancelar. Mas os dados mostram que a retenção começa muito antes — no momento em que o cliente usa (ou não) o serviço que está pagando.
No caso dessa associação, 1.352 clientes estavam a uma mensagem de distância de perceber mais valor no serviço. Não era preciso mudar o produto, nem reduzir o preço, nem criar um programa de fidelidade elaborado. Bastava fazer o cliente saber o que ele já tinha.
Às vezes, a melhor estratégia de retenção não custa nada. Só exige que você olhe para os dados e aja.
Referências
- Reichheld, F. F. (2003). "The One Number You Need to Grow". Harvard Business Review, Dez 2003.
- Kumar, V. & Reinartz, W. (2016). Customer Relationship Management: Concept, Strategy, and Tools. 3a ed., Springer.
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