Sinistralidade 1 de abril de 2026 · 6 min de leitura

743 dias esperando: o backlog de sinistros que vira bomba-relógio

Sinistros esquecidos no sistema por dois anos representam risco financeiro, jurídico e reputacional. Os dados mostram que o problema é concentrado — e tratável.

O SLA padrão do mercado para resolução de sinistros de proteção veicular é de 30 a 45 dias. É o prazo que o associado espera. É o prazo que a regulação sugere. É o prazo que mantém a confiança no sistema.

Agora imagine descobrir que um sinistro está aberto há 743 dias. Mais de dois anos. E que não é o único.

Os números que ninguém quer ver

Uma associação de proteção veicular fez uma análise detalhada do seu backlog de sinistros e encontrou casos que desafiam qualquer padrão de gestão:

  • SIN-00106: aberto há 743 dias, veículo avaliado em R$ 30.300 — mais de dois anos sem resolução
  • SIN-00044: aberto há 719 dias, veículo avaliado em R$ 213.300 — quase dois anos, com valor expressivo em jogo

Dois sinistros, mais de R$ 243 mil em valor de veículos, parados há quase dois anos no sistema. Enquanto isso, o SLA da associação é de 30 a 45 dias.

A boa notícia é que o tempo médio de resolução dos sinistros mais recentes melhorou para 31 dias — dentro do SLA. Mas os outliers continuam lá, como bombas-relógio esquecidas no sistema.

Por que sinistros antigos são perigosos

Um sinistro aberto não é apenas um número no sistema. É uma obrigação financeira não resolvida, um associado insatisfeito e um risco jurídico crescente.

  1. Risco financeiro: o valor do sinistro continua provisionado (ou deveria estar). R$ 213.300 parados em provisão é capital que não pode ser usado para nada
  2. Risco jurídico: após 30-45 dias de SLA, cada dia adicional aumenta a probabilidade de ação judicial. Em muitos estados, os juros de mora sobre sinistros não pagos são significativos
  3. Risco reputacional: um associado esperando há 743 dias não está em silêncio. Ele está contando para vizinhos, amigos, família. Cada dia é mais uma pessoa que ouve "não pague associação, eles não pagam sinistro"

O padrão escondido

Quando analisamos o backlog inteiro, o padrão ficou claro: a grande maioria dos sinistros era resolvida dentro do prazo. O problema não era sistêmico — era concentrado. Um pequeno número de casos estava preso em algum gargalo (documentação pendente, disputa sobre cobertura, processo de avaliação incompleto) e simplesmente foi esquecido.

Isso é ao mesmo tempo preocupante e animador. Preocupante porque significa que o sistema de acompanhamento falhou — ninguém estava monitorando os casos fora do SLA. Animador porque, se o problema é concentrado, ele é tratável.

Não é preciso reformar todo o processo de sinistros. Basta criar um alerta simples: qualquer sinistro aberto há mais de 45 dias precisa de atenção humana imediata. Essa única regra teria evitado os 743 dias de SIN-00106.

A conta do atraso

Vamos fazer a conta conservadora para o SIN-00044, o sinistro do veículo de R$ 213.300:

  • Juros de mora (1% ao mês): R$ 2.133/mês x 24 meses = R$ 51.192 em juros acumulados
  • Custo jurídico potencial: se o associado entrar na justiça, honorários e custas podem facilmente chegar a R$ 15.000-30.000
  • Dano moral: tribunais brasileiros têm concedido indenizações por demora injustificada em sinistros

Um sinistro que poderia ter custado R$ 213.300 se resolvido no prazo pode acabar custando R$ 300.000 ou mais com todos os encargos do atraso. A "economia" de postergar virou prejuízo multiplicado.

Como evitar bombas-relógio

A solução não exige tecnologia sofisticada. Exige disciplina de dados:

  1. Dashboard de aging: uma visualização simples que mostra todos os sinistros abertos, coloridos por tempo (verde = dentro do SLA, amarelo = próximo do limite, vermelho = fora do SLA)
  2. Alerta automático: notificação ao gestor quando qualquer sinistro ultrapassar o SLA
  3. Revisão semanal: reunião de 15 minutos para tratar apenas os casos em vermelho
  4. Escalonamento: se um sinistro passa de 60 dias, sobe automaticamente para a diretoria

A média de 31 dias mostra que o processo funciona para a maioria dos casos. O que falta é um sistema que não deixe os outliers serem esquecidos.

A pergunta para hoje

Você sabe quantos sinistros abertos tem no seu sistema agora? E há quanto tempo o mais antigo está lá? Se não sabe, a resposta pode ser mais assustadora do que imagina.

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